Professor Israel diz que o pior defeito de um governante é a corrupção

Deputado defende que a candidatura tem que ser uma disputa de idéias. Foto: Gustavo Goes

Terceiro deputado distrital mais bem votado em 2014, o professor Israel Batista pretende se candidatar à Câmara Federal nas próximas eleições. Mas o discurso continuará o mesmo – defesa dos jovens, do trabalho e da educação para este público, com quem convive diariamente nas aulas que ministra em cursinhos preparatórios para concursos. “Não tenho muita geografia”, diz ele, exemplificando que sua maior votação empata em Ceilândia, Asa Norte e Taguatinga. E, proporcionalmente, o Guará, além de ser o terceiro mais votado na Estrutural. “Minha pauta não é geográfica, é temática. Esses meninos querem trabalho, faculdade ou passe do DFTrans, que é minha briga eterna”. O professor aprendeu que as famílias que têm filhos adolescentes concentram seus esforços para prepará-los para o futuro. E é daí que vem a sua grande aprovação nas urnas. Nesta entrevista exclusiva ao Brasília Capital, ele diz que a dicotomia Esquerda X Direita está ultrapassada e que o pior defeito de um governante é a corrupção. “E isso não tem sido imputado ao governo Rollemberg”. Mas aponta “uma certa dificuldade da equipe do Buriti na comunicação com o meio político”.

            Começam a se formar as alianças para a disputa eleitoral de 2018. De que forma se posicionaria o PV nesse cenário? O Partido Verde dialoga com as forças progressistas do DF. Mas o PV se mantém distante desta disputa antiquada de esquerda e direita. Primeiro, o Brasil precisa, urgentemente, diminuir o radicalismo das posições. E Brasília precisa, neste momento, de gestão política e administrativa. O que eu sinto é que o PV tem cacife para fazer política fora desta dicotomia – esquerda e direita – que está ultrapassada. O PV superou o debate do século XX, que era Comunismo X Capitalismo. E está no debate do século XXl, que é a manutenção da espécie humana. É um partido internacional, presente em dezenas de países,e que tem feito esse debate desde o fim dos anos 1970.

Como integrante da base de Rollemberg, o senhor acha ele tem correspondido a essa expectativa de boa gestão política e administrativa? O atual governo enfrenta os sintomas de uma profunda crise brasileira. Não há nenhum governador bem avaliado. Vivemos uma recessão que só tem precedentes em 1929, com o crack da Bolsa de Valores. Então, exigir popularidade de qualquer governo não é correto no momento. Na última década, nenhum governante europeu, tirando Ângela Merkel (primeira-ministra da Alemanha), foi reeleito. Estamos vivendo um momento de crise em que é criminoso um governo ficar pensando em reeleição. O governo tem que pensar em salvar a cidade. Eu vejo que Rollemberg tem se mantido à margem de crise do ponto de vista ético. Eu imputo ao governo um defeito que eu já falei ao governador: ele tem dificuldade de fazer relacionamento político. E isso custa caro. Em uma crise como essa, é preciso saber liderar as forças políticas e gerar um movimento que beneficie a sociedade.

Como ele poderia fazer isso? – O primeiro ponto é o diálogo desprovido de qualquer tipo de preconceito com a classe política nos seus diversos matizes. Não existe pensamento superior a outro pensamento. Nós estamos em uma democracia. O meu avô tem 80 anos. Ele não é melhor ou pior do que eu. Somos diferentes e pensamentos de forma diferente. Mas temos que conviver, porque somos cidadãos no gozo pleno dos nossos direitos políticos.

Essa falta de diálogo pode ser refletida na derrota do Buriti na eleição para a Mesa Diretora da Câmara Legislativa? Pode sim. Acho que há uma certa dificuldade na comunicação com o meio político. Eu diria, até, mais da equipe do que do próprio governador. Mas, essa não é a pior das dificuldades e nem o pior defeito de um governo. Para mim, o pior defeito é corrupção. E isso não tem sido imputado a este governo.

Eduardo Jorge e Aécio Neves em 2014. O candidato do PV apoiou o tucano no segundo turno. Foto: André Coelho / Agência O Globo

Na eleição de 2014, o presidenciável do PV, Eduardo Jorge, apoiou o Aécio Neves (PSDB-MG) no segundo turno … É verdade. Foi muito polêmico – e corajoso também – ele se posicionar. Acho que, naquele momento, ele se posicionava contra o que estava por vir do escândalo do Petrolão. Não foi unanimidade. A minha posição era de que o partido mantivesse neutralidade e se afastasse dos dois candidatos. Assim como a minha posição é que o partido se afaste do governo Temer. Mas, o PV não precisa ter esse tipo de abordagem e trabalhar a partir de compromissos.

O presidente local do PV, Eduardo Brandão, que foi candidato a deputado federal, tem trabalhado mais próximo com a esquerda… –  Nós temos afinidades com a esquerda. Eu tenho muita afinidade com alguns colegas da Casa. O deputado Reginaldo Veras, do PDT, é uma pessoa com quem tenho muito entrosamento. Trabalhamos juntos em vários projetos, como a abertura dos CIL’s  (Centros Integrados de Língua), que foi uma grande vitória nossa. Só neste semestre foram mais de 4 mil vagas por conta dessa lei. No acumulado, são 12 mil vagas. Nossa parceria é natural. Então, é natural que a gente se aproxime deste campo. Não temos compromisso com esquerda-direita. Temos compromisso com o resgate da cidade.

Esse discurso de resgate da cidade também é utilizado pela direita… – Foi o mesmo discurso do Agnelo após a queda do Arruda. Esse discurso, de fato, foi apoderado por todos os grupos porque, na verdade, é uma ansiedade da população. O brasiliense quer ver a cidade tratando dos problemas que tem que tratar.

Mas a população não fica frustrada de sempre ouvir o mesmo discurso, que nunca é posto em prática? – É uma frustração natural da sociedade. Neste momento de crise, precisamos repensar nossa estrutura e precisamos ter coragem. A estrutura é impraticável. A nossa cidade declarou guerra ao empreendedor, a quem quer abrir um negócio. Nossa cidade demora mais que outros Estados para emitir alvarás. Então, não temos como tirar impostos porque as atividades econômicas estão reprimidas. E temos mais servidores públicos do que o município de São Paulo – que é três vezes maior em número de eleitores. Não há como manter esta cidade. Brasília tem 222 mil servidores que vivem do erário. E onde estamos produzindo a riqueza? Dependemos do Fundo Constitucional. E quando outros Estados se irritarem por manter um fundo deste tamanho, que corresponde a toda arrecadação anual do Piauí? Como que vamos manter isso? A cidade tem que fazer um mea culpa. Nós estamos permitindo que as pessoas empreendam? Que elas ganhem dinheiro, para ser menos dependente dos concursos públicos.

Foto: Gustavo Goes

O senhor vê possibilidade de se repetir em Brasília o fenômeno João Dória, nas eleições para prefeito de São Paulo no ano passado? Há uma grande chance de que a próxima eleição seja uma surpresa. Os caciques não estão com a taça na mão. Todos estão com a corda no pescoço. Políticos de grande envergadura, que tiveram eleições de milhões de votos no passado, nessas eleições, certamente, terão grandes surpresas. O Dória representa um fenômeno: o do saco cheio. Essa é a verdade. O Dória vem com soluções da iniciativa privada, que é o que a sociedade está pedindo. Como podemos manter um Estado paquidérmico como o nosso? Como podemos não cobrar qualidade do serviço público? Como podemos manter o único serviço público do planeta que não tem avaliação de rendimento do servidor? Somos o ultimo país do mundo no qual um concurso te dá acesso eterno a uma vaga no serviço público. Temos que debater isso. Não há como manter este país com essa estrutura. E olha que eu passo a minha inteira preparando as pessoas para entrarem no concurso público. O que eu não posso admitir é uma manifestação de uma forma de pensar que acredita que o serviço público não deva satisfações à sociedade. Eu sempre falo para os meus alunos: “O seu patrão não é o governo, e sim o povo, que precisa do seu rendimento”. Houve época em Brasília em que os professores de concurso ensinavam os alunos a passarem na prova, porque depois da prova eles estariam garantidos, e não prestariam contas a ninguém. Isso está ultrapassado.

Mas esta mensalidade ainda se mantém até hoje em várias repartições … – Os meus alunos, não. Eles entram no serviço público com outra mentalidade. São os novos servidores públicos que têm combatido a corrupção e prestado o trabalho decentemente. Nós declaramos guerra a essa mentalidade da não-prestação de contas, do não-trabalho e do mamar nas tetas do Estado. Tem gente pagando por isso.

Esse discurso se encaixa no perfil de políticos que tendem a crescer nas próximas eleições. O senhor pretende alçar voos mais altos? – O meu projeto, hoje, é vir a deputado federal. Nós sabemos que nas próximas eleições vai haver uma renovação muito forte. Estou em meu segundo mandato. Fui o terceiro mais bem votado na última eleição e tive um custo de campanha muito baixo. Por isso, acho que aqui na Câmara Legislativa a minha missão está cumprida. Fizemos projetos grandiosos. Foi daqui que saiu a idealização do Brasília Sem Fronteiras, que corrigiu os erros do Ciências Sem Fronteiras. Foi deste gabinete que saiu o Nota Legal em dinheiro; a reabertura do Planetário, depois de 16 anos fechado. Sempre fui um deputado que não teve medo de bater na porta do Buriti e exigir que o Executivo tomasse providências. Daqui saiu o Bora Vencer e o QualifiCopa, que são projetos enormes. No geral, atingiram mais de 200 mil pessoas, sem contar o Nota Legal, que atingiu muito mais. Acho que a gente precisa buscar esses voos maiores. O planejamento é para que a gente venha a deputado federal, mas entendo que a cidade pode precisar de novos nomes para outras missões.

A mudança na legislação, proibindo o financiamento de campanhas por empresas, favorece candidatos com o seu perfil? Uma campanha não pode ser feita como um produto do Marketing. Campanhas políticas têm que ser genuínas. Quando você faz campanhas multimilionárias, perde esse caráter real e genuíno. A candidatura tem que ser uma disputa de idéias, e o recurso usado tem que ser apenas o suficiente para expor as ideias ao público.

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