Pico-de-Jaca

Te conto, bicho. Preciso desabafar. Dia e noite tô nessa de lembrar. Aquela viagem marota foi mesmo dose pra deixar nêgo lelé da cuca. Tu saca que a gente nascido e criado no asfalto da Zona Sul não tá pra essa caretice de curtir selva adoidado. Porém, por causa de meu cabide de emprego no jornal, fui obrigado a entrar nessa fria de ter de fazer reportagem sobre os garimpos de ouro do Alto Tapajós. Foi lá que tive de enfrentar uma barra pesada, principalmente pela ziquizira de encarar cobras venenosas às pampas, que davam até pra lotar o estádio do Maracanã. Tu tá pensando que é papo-furado? Então, curte essa, malandro! E tu acredita se quiser.

Lá tu cruza com cobras de todos os tipos e tamanhos. E tem uma que não tem soro antiofídico que dê jeito no veneno dela. É uma tal Pico-de-Jaca, que mede mais ou menos um metro de comprimento e tem a grossura de um dedo. Porém, basta uma picadinha da bicha e o cara vai pra cucuia do inferno, botando sangue pelos poros sem parar, até a última gota. Ela é pequenina, porém tu basta pronunciar o nome dela e a galera fica se borrando de medo. Aqui pra nós, a Pico-deJaca é traiçoeira que nem rabo de saia. E azar de quem ela estiver a fim. Se armar o bote, não erra nunca.

Essa bronca ninguém me contou. Eu vi tudo com estas botucas que a terra vai comer. A zorra aconteceu numa manhãzinha bem cedo, quando o fotógrafo João Antônio desceu da rede armada no galho de uma árvore e a pilantra da Pico-de-Jaca tava dando plantão lá embaixo. E adivinha onde? Dentro da bota dele, podes crer! Com uma rapidez impressionante, ela deu o bote, aplicou uma picada na perna do otário e se afastou rebolando que nem porta-bandeira de escola de samba, deixando o infeliz sentado no chão, pálido que nem presunto de necrotério. E ele apagou rapidinho, botando.sangue pelos poros, sem tempo de sentir cagaço da morte.

Porém, quem ficou na bronca braba foi este teu chapa aqui. Deixei até de trabalhar com paúra de cobra. E dizem por aí que fiquei matusquela só porque fico pensando e falando na Pico-de-Jaca a toda hora. Às vezes acordo berrando no meio da madruga, sabendo que a malvada tá lá me paquerando debaixo da cama, só me esperando botar os pés no chão pra ela me mandar pro beleléu suando sangue, como fez com o fotógrafo João Antônio.

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