O vale das cruzes

Mario Pontes

 

Em 1975, o Jornal do Brasil foi convidado a fazer a cobertura de um Congresso Mundial de Bruxos a realizar-se em Bogotá, com a esperada presença de antropólogos, estudiosos de religiões, intelectuais do país e do estrangeiro. Coube a mim a tarefa. No mesmo avião, movida pela mesma curiosidade, viajou a conhecida escritora brasileira Clarice Lispector. Mal desembarquei, soube pelos jornais que a Igreja Católica – em tom perfeitamente medieval – condenava o evento como diabólico. Não ia a reunião começar em 24 de agosto, dia em que o Diabo recebe licença para deixar o Inferno e vir tentar livremente, por vinte e quatro horas, as criaturas humanas?

O bombardeio da Igreja fez do Congresso um fracasso. No meu caso, porém, a viagem foi proveitosa. Aprendi muito sobre os colombianos e ganhei dois excelentes amigos. Um era professor do ensino médio, louco por artes, teatro, música, especialmente a de Beethoven. O outro, jornalista, me ensinou a cidade; não me levou a pontos meramente turísticos, mas às livrarias, às ruas, às esquinas onde garotos vendiam caixas de fósforo e exemplares de uma recém-publicada noveleta de García Márquez.

No dia seguinte ao melancólico encerramento do Congresso, o amigo jornalista veio encontrar-me cedinho no hotel.

– Você deve estar muito cansado – disse-me. – Trouxe o carro para darmos um passeio.

Subimos o braço dos Andes à direita da capital. E após algo como uma hora de viagem na direção norte chegamos ao ponto extremo e mais agradável da excursão: uma grande chácara suíça, onde se produzia derivados de leite, frutas, doces, chocolates… Na volta, meu amigo escolheu outro caminho para Bogotá: o do vale que separa os dois braços da cordilheira. Não havia nada de muito especial naquela área pouco habitada, a não ser o número de túmulos, covas rasas ou simples cruzes de madeira plantadas à margem da estrada. Perguntei-lhe a razão daquilo.

– É apenas uma das muitas provas de que nossa história política tem sido pra lá de sangrenta.

Explicou-me, então, que desde inícios do século XIX a divisão entre conservadores – centralistas apoiados pela igreja – e  liberais, federalistas e progressistas, levou a inúmeros choques armados. Um deles, ocorrido na virada do século XIX para o século XX, ficou conhecido como a Guerra dos Mil Dias. Sucessões de golpes, violações constitucionais, políticas impopulares, levaram na década de 1960 ao nascimento das FARC (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia). Mas a guerrilha das FARC não foi a única. Houve outras, com bandeiras de cores variadas e opostas.  

O peso dessas prolongadas guerras, é claro, foi excessivo para o povo: crises econômicas, quedas no bem-estar, atrasos na educação, enfraquecimento das relações exteriores. Mais de uma vez, governos maleáveis chegaram a acordos parciais com as FARC, a seguir congelados ou desfeitos por governos conservadores e repressivos. Isso prolongou a luta por meio século. Em anos recentes, porém, governantes capazes de ver mais longe negociaram pacientemente o fim da guerra.  Agora a paz foi finalmente alcançada.

Na qualidade de vizinho e admirador do povo colombiano, em particular dos seus poetas, ficcionistas, meninos vendedores de jornais, torço para que a paz seja duradoura. Para que as cruzes à margem daquela estrada ao norte de Bogotá deixem finalmente de multiplicar-se.

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