O reencontro com o poeta Newton Rossi

 

Sem chororô, mas como a grana dos três salários mínimos, que recebo mensalmente da mísera aposentadoria do INSS, mal dá para pagar os remédios que afugentam as diabetes e outras ziquiziras próprias de nonagenário , não posso mais me dar ao luxo de comprar livros no Sebinho da 406 Norte. Sebinho que cresceu tanto que virou um sofisticado bistrô cultural, prova evidente que livraria proporciona excelentes lucros. Aliás, menos para nosotros, escritores desamparados, que só recebem 10% de direitos autorais  relacionados ao preço das capas, à exceção dos escribas patrocinados pelas multinacionais que são citados  na TV Globo.

Como mencionei em crônica anterior, “A minha casa é toda coberta de beijos”, incluo esses beijos de amor aos livros espalhados em espaços enrustidos nas paredes da sala, nos três quartos e no meu escritório de dois metros quadrados ― onde sacio a fome de reler(*) autores consagrados, na impossibilidade atual de adquirir literatura. E o jeito é remexer as estantes improvisadas. E foi nessa procura que reencontrei o volume Alma da Ruado saudoso poeta e amigo Newton Rossi.

É impressionante: quando se relê um livro depois de alguns anos, vale como se redescobríssemos o autor, mesmo que ele tenha sido companheiro de santas boemias, ouvindo músicas de Tom Jobim, regadas a goles de conhaque, do qual também era adepto. Além dessa preferência, nós garimpamos o mesmo amor por Brasília, conforme NR revelou em um dos seus  poemas:

“Eu achei Brasília! / Achei como quem acha / A pepita de ouro procurada / No sonho dos garimpos!”

De repente, a figura de Newton Rossi, como poeta, cresceu e me envolveu. E reli os 83 poemas e 33 sonetos de “Alma da Rua” com profunda emoção, como se fosse a primeira vez. Só faltou a memorável “Oração dos que não sabem rezar”, que guardei na memória alguns versos esparsos:

“Senhor! Que estas palavras, que não dizem tudo / Possam chegar um dia aos Teus ouvidos… / Mensagem de pureza dos que não sabem dizer, / Dos que não podem falar, / Dos que só sabem sofrer. / Esta é a oração dos que não sabem rezar!”

Esta “Oração” foi traduzida para 18 idiomas, inclusive adotada na China comunista, que não acredita em Deus.

 

(*) Para mim, a leitura sempre foi o lazer preferido, desde criança.

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