Navegar não é preciso, ler é preciso!

 

Embora tenha alisado com o meu magrelo traseiro os bancos de nada menos de três faculdades universitárias, reafirmo o que já disse neste cantinho de página: 90 % do verniz de cultura que possuo foram conquistados pela leitura de livros, a começar pela Bíblia, aos cinco anos de idade, por inspiração de meu saudoso pai.

Na exata proporção em que fui crescendo física e mentalmente, transformei a leitura no meu principal entretenimento. Mas a esta altura do “campeonato da sobrevivência”, no qual concorro aos 90 anos, 8 meses e 8 dias de idade, o que seria de mim não fossem as páginas de meus livros protegendo-me contra a solidão de uma magra aposentadoria, que me tornaria, com certeza, candidato à depressão.

Isto ficou constatado, mais uma vez, em recente curta viagem de férias julinas, acompanhado de minha mulher. Ledinha, de meu filho Cláudio, e de minhas netinhas Bárbara, 11, e Maria Luíza, 8. E como bater pernas à procura de atrativos não é mais a minha praia, enquanto eles perambulavam a passeio, eu ficava confortavelmente no quarto do hotel, lendo o romance Monsenhor Quixote, de Graham Greene, que comprei no Sebinho da 407 Norte.

Nesse contexto, o laureado escritor inglês coloca o leitor diante de um debate teológico sobre a existência de Deus, através do rico diálogo entre um velho pároco de uma cidadezinha espanhola e um ex-seminarista católico que se tornou comunista após a leitura de O Capital, de Karl Marx, emprestando-o ao padre Quixote no transcurso de uma surpreendente viagem, percorrendo aldeias pitorescas no trajeto até Madri.

No final das 216 páginas, na condição de ex-seminarista presbiteriano que renunciou ao ministério pastoral às vésperas de se diplomar, por causa das mesmas dúvidas do protagonista comunista do romance, livro marxista que também balançou a roseira da fé do idoso padreco -, eu me senti menos ignorante em matéria de angústia existencial (**), como se tivesse recebido uma aula de filosofia de Graham Greene.

Concluindo:  que lindas férias desfrutei, graças à simples leitura de um Best-seller.

           

(*) Versão ligeiramente alterada do verso de Fernando Pessoa: “Navegar é preciso, viver não é preciso!”

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