Movido pela esperança

 

A maioria das pessoas não acompanha as notícias econômicas nem fica contabilizando pequenos índices que apontam para a “desaceleração” da inflação no País. Menos ainda quando a variação é mínima, como foi divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Elas enfrentam as dificuldades para garantir a sobrevivência, constatam a piora na qualidade de vida, mas não deixam que a avalanche de notícias negativas enterre de vez suas esperanças em dias melhores.

José Mamede Lopes, 52, que trabalha com comércio desde os oito anos, considera que a situação parou de piorar, mas os sinais de melhora ainda são fracos. Para ele, depois que Dilma Rousseff foi afastada da Presidência da República, “parece que o ânimo do povo começou a voltar”, mas que o vice-presidente Michel Temer deveria “reduzir os impostos, criar condições para volta dos empregos e acabar com a indústria da multa”, referindo-se à questão da obrigatoriedade dos faróis baixos dos veículos que devem ficar acesos durante o dia.

IPCA – O comerciante deu sua opinião enquanto analistas econômicos analisam números coletados pelo IBGE. Quarta-feira (24), o instituto divulgou o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo -15 (IPCA-15), considerado uma prévia da inflação oficial. Em julho a alta foi de 0,54% e agora em agosto de 0,45% indicando uma desaceleração da inflação. Especialistas destacam que isso se deu devido a uma alta menos acentuada dos preços dos alimentos, vestuário, transportes e habitação. Isso é um bom sinal para a economia, mas não significa que tudo está resolvido. A taxa de desemprego muito alta, mostra que a recuperação será demorada. Mas o brasiliense não fica esperando e vai à luta.

O estudante Adriel com 20 anos, cursando o 3º ano do ensino médio, integra as estatísticas de desemprego. Por meio do programa Jovem Aprendiz havia conseguido um trabalho como auxiliar de cozinha num hospital. Mas com um salário de R$ 290,00, ele preferiu sair e atualmente vende sacos de lixo e panos de chão num dos semáforos da Asa Norte. Ele, que tem curso de informática, montagem e configuração de computadores, desistiu desse emprego e passou cinco meses distribuindo currículos depois que terminou o serviço militar. Como não obteve sucesso, a informalidade foi o caminho.

 

Informalidade – Enquanto muitos procuram a regularização de suas atividades e outros lutam para preservar empregos, salários e conquistas trabalhistas, André Vieira, 26, há um mês pediu demissão e preferiu a informalidade. Ganhava R$ 800,00, com os quais não estava conseguindo manter a família. Hoje vende material de limpeza nos semáforos juntamente com outros que comercializam frutas da estação. “Antes as pessoas arredondavam a conta, deixando os trocados com a gente. Hoje, além de comprarem menos, ainda ficam pechinchando.” Mesmo nesses tempos difíceis e ficando até tarde da noite na rua, ele “melhorou de vida”, garante. Passou dos R$ 800 para R$ 1,2 mil por mês.

Com o aumento da informalidade, cai a arrecadação de impostos e o governo tem que equacionar as contas. Segundo os entrevistados e os especialistas, a esperança parece estar voltando e as expectativas são de uma melhora real. Vicente Alves, 52, empreiteiro de pequenas obras de reformas ilustra bem o cenário da busca de equilíbrio. “Como o dinheiro está curto, as pessoas passaram a reformar e manter seus imóveis. Não são grandes obras, mas, com isso, tenho tido muito trabalho.” Ele completa rindo: “a vida está difícil mesmo é para os corretores de imóveis que não estão vendendo nada.” Um negócio que não sofreu alteração foi o de chaves. Lucas Reis, 21, diz que continua com a mesma demanda e que não sente queda na receita de sua banca de chaves, mas que está controlando mais as despesas considerando o cenário como um todo. “É bom não correr o risco de precisar e não ter”, afirma ele, que herdou o negócio do pai que faleceu há dois anos.

Brasília, onde os salários médios são os mais altos do País, por conta dos servidores públicos, não está imune a crise econômica e ainda vive duas crises políticas, a nacional e agora uma local. Mesmo assim, os brasilienses dão um jeito e vão driblando as dificuldades com criatividade e determinação.

 

 

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José Mamede, 52, em frente à banca de chaves do amigo Lucas Reis, para quem a crise tem sido uma oportunidade aumentando o trabalho de pequenas reformas em residências. Foto: Zilta Marinho

 

 

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