Médicos ameaçam greve

Corporativismo do CFM contra os profissionais estrangeiros pode afetar saúde no Brasil

Basta! Pode-se resumir nesta palavra o sentimento dos mais de dois milhões de brasileiros que foram às ruas nas últimas semanas para pedir melhorias na saúde, na educação, na mobilidade urbana e, principalmente, mais respeito.

Fruto desta mobilização social jamais vista em território nacional, um pronunciamento da presidente Dilma Rousseff na sexta-feira (21) parou o Brasil. O povo queria ouvir a chefe da Nação e suas respostas aos clamores populares. Seria o momento de Dilma conseguir conter a baderna que se alastrou pelo país.

A presidente pediu manifestações sem quebra-quebra, elogiou o povo brasileiro e fez promessas. Dentre as juras, usar 50% dos royalties do pré-sal para educação, começar a reforma política e, ainda, contratar médicos estrangeiros para trabalhar no Brasil.

Esta alternativa para a saúde, porém, não foi bem recebida pelos profissionais brasileiros. Para o Conselho Federal de Medicina (CFM), a medida é uma vergonha nacional.

“O caminho trilhado é de alto risco e simboliza uma vergonha nacional. Expõe a população, sobretudo a parcela mais vulnerável e carente, à ação de pessoas cujos conhecimentos e competências não foram devidamente comprovados. Além disso, tem valor inócuo, paliativo, populista e esconde os reais problemas que afetam o Sistema Único de Saúde (SUS)”, ressalta o CFM em nota oficial publicada no site.

Sem tempo para errar e evitando transtornos maiores, já na terça-feira (25) o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, explicou o projeto, alegando que os médicos estrangeiros ocupariam apenas as vagas não preenchidas pelos brasileiros. A autorização para esses profissionais, no entanto, será restrita.

Mesmo assim os médicos se mostraram cautelosos com a medida e ameaçam greve na categoria. As principais entidades médicas estão organizando um ato nacional para o dia 3 de julho, em diversas cidades, para cobrar do governo federal melhores condições de trabalho e manifestar o seu “repúdio” à intenção do Ministério da Saúde de contratar profissionais estrangeiros.

O presidente da Associação Médica Brasileira (AMB), Florentino Cardoso, afirma que a ideia não é fazer uma greve “para não punir a população”, e que os serviços de emergência terão garantidos a presença mínima de médicos. Ainda assim, a população deverá ser afetada.

Interior

Os estrangeiros, a princípio, viriam ao Brasil para trabalhar no interior do país, lugar onde a maioria dos médicos brasileiros não se interessa devido às precárias condições. “Se nas capitais a estrutura já é ruim, imagina no interior? O médico pouco tem a contribuir se não tiver as mínimas condições de trabalho”, lamenta a estudante de medicina Luana Nogueira.

O principal argumento do CFM é a má formação dos médicos estrangeiros. A entidade ressalta que o êxito da iniciativa dependerá do aperfeiçoamento imediato das condições de atendimento oferecidas à população. De acordo com o Conselho, caso os vazios assistenciais não sejam preenchidos, médicos estrangeiros poderão ser contratados, desde que estes passem pelo exame de validação de diplomas médicos e por testes de proficiência de língua.

O corporativismo da instituição, porém, parece já ter alcançado o nível máximo de ponderações junto ao governo. Dados apresentados pelo ministro mostram que há um déficit de 54 mil profissionais, o que gera uma proporção de 1,8 médico por 1 mil habitantes, menos que na Argentina, no México e no Uruguai, por exemplo.

Para suprir essa carência, o ministro anunciou a abertura de 35 mil vagas para médicos no SUS até 2015. O governo também vai criar mais 12 mil vagas de residência médica até 2017. Atualmente, o país tem 11 mil vagas para cada 15 mil estudantes de medicina que se formam todos os anos. A ideia é formar especialistas em 27 áreas prioritárias, como pediatria, anestesiologia, radiologia e psiquiatria. Das vagas de residência, 4 mil devem ser criadas até 2015, segundo dados do MS.

Contratação

A contratação dos médicos do exterior deve começar ainda em 2013. Eles ficarão três semanas em uma instituição de ensino, tendo suas habilidades como médico avaliadas, assim como sua capacidade de comunicação. Em paralelo, serão checadas eventuais queixas de ordens médicas no seu país de origem. “Só vai para o município o médico que for aprovado nesse processo de avaliação”, garantiu o ministro.

 Por Gabriel   Gabriel Pontes

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