Futuro das relações entre Rússia e EUA ainda incerto

Donald Trump deve se encontrar com presidente russo em julho, na Alemanha, na reunião do G20. Foto: Reprodução/Instagram
Aleksei Timofeitchev(*)
Donald Trump tomou posse como presidente dos Estados Unidos há pouco mais de um mês. Até agora, no entanto, o novo líder não assumiu qualquer medida para alterar a política de Barack Obama em relação à Rússia, e não há previsão de as sanções econômicas serem suspensas. A Gazeta Russa faz um balanço desses primeiros dias de governo Trump e responde a seis questões sobre o futuro das relações bilaterais.
Os presidentes da Rússia, Vladimir Pútin, e dos EUA, Donald Trump, falaram ao telefone uma vez, em 28 de janeiro, por cerca de 45 minutos. Em coletiva à imprensa no dia 16 de fevereiro, Trump disse que a conversa foi “muito boa”.

O Kremlin (governo russo) foi menos emotivo em sua avaliação e informou que a conversa havia sido realizada de “maneira positiva e profissional”. Sabe-se também que os dois líderes discutiram os principais problemas mundiais: da crise na Ucrânia ao programa de mísseis da Coreia do Norte. Também foi levantada a questão de uma “verdadeira coordenação” entre os EUA e a Rússia para derrotar o Estado Islâmico na Síria.

Putin e Trump encarregaram suas equipes de organizar uma data e um lugar para a realização de um encontro presencial. O porta-voz do Kremlin, Dmitri Peskov, disse que os dois certamente se encontrarão durante a Cúpula do G20, na Alemanha, em julho (O G20, Grupo dos 20, é formado por ministros da economia e presidentes de bancos centrais dos 19 países de economias mais desenvolvidas do mundo, incluindo o Brasil, mais a União Europeia).

2. O que acontecerá com as sanções antirrussas?

Ainda não há detalhes sobre o que os dois líderes chamaram de “restabelecimento das relações comerciais e econômicas” durante a conversa. No entanto, isso não pode ser feito sem que as sanções contra Moscou sejam suspensas.

O único passo construtivo até agora partiu do Departamento do Tesouro dos EUA, que atenuou as sanções contra o FSB (Serviço Federal de Segurança da Rússia, órgão que substituiu a KGB). Segundo documento assinado em fevereiro, todas as transações e contatos de empresas norte-americanas com o FSB, que haviam sido proibidas por Obama em abril de 2015, passaram a ser liberadas.

Anteriormente, Trump vinculara o fim das medidas à possibilidade de Moscou assinar um acordo para a redução adicional de arsenais nucleares. A proposta, porém, não tem perspectivas de vingar.

3. Trump mudou seu posicionamento em relação à Crimeia?

Trump e sua equipe parecem manter posicionamentos distintos sobre essa questão. Ainda durante a campanha eleitoral, o presidente declarou que a votação na Crimeia (para que a península fosse reintegrada à Rússia) representava a escolha legítima dos locais, e que estava claro que eles preferiam fazer parte da Rússia a permanecer no território ucraniano. Além disso, Trump destacou que qualquer tentativa de devolver a Crimeia à Ucrânia poderia resultar na Terceira Guerra Mundial.

Há poucos dias, no entanto, a administração dos Estados Unidos publicou uma declaração completamente diferente a respeito da Crimeia. O secretário de Imprensa da Casa Branca, Sean Spicer, disse que o presidente “está esperando que a Rússia ajude a abrandar a situação na Ucrânia e devolva a Crimeia”.

Em sua conta no Twitter, Trump também disse que “a Crimeia foi tomada pela Rússia durante a administração Obama. Obama foi muito mole com a Rússia?”. Essa foi sua primeira declaração pública sobre a questão desde que se tornou presidente, e acredita-se que o tuíte esteja mais relacionado com Obama e com as acusações de conexão entre Trump e Moscou do que com a questão crimeana.

4. E em relação à Otan, Trump assumiu uma nova atitude?

A nova administração também mudou sua atitude em relação à Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), aliança militar do Ocidente. Em entrevista às revistas alemã Bild e britânica Times, em 16 de janeiro, Trump se referiu à Otan como uma organização “obsoleta” e reiterou sua opinião de que a aliança possui diversos problemas. Ainda assim, acrescentou que a parceria é “muito importante”.

Durante sua campanha presidencial, Trump lançou dúvidas sobre o Artigo 5 da Otan, que versa sobre a necessidade de proteger coletivamente um membro da Aliança no caso de ataque. Segundo o presidente americano, o compromisso dos EUA pode ser revisto se os países-membros não pagarem uma parcela justa pelos custos da Aliança.

Paralelamente, em reunião com ministros de Defesa da Otan em Bruxelas, no último dia 15, o chefe do Pentágono, James Mattis, disse que “a Aliança continua a ser um alicerce fundamental para os EUA e para toda a comunidade transatlântica”.

Reverberando o posicionamento de Trump, porém, Mattis destacou a necessidade de os aliados ofereceram maior contribuição para cobrir os custos da Otan. Já em relação à Rússia, o chefe do Pentágono não ecoou a retórica reconciliadora de Trump.

5. Haverá cooperação entre os EUA e a Rússia na Síria?

Apesar de Pútin e Trump terem discutido a necessidade de uma luta conjunta contra os terroristas islâmicos na Síria, o novo chefe do Pentágono exclui qualquer cooperação militar com a Rússia. “Não estamos em posição de colaborar em nível militar, mas nossos líderes políticos irão se empenhar e tentar buscar um denominador comum ou um caminho a seguir para que a Rússia, cumprindo com seu compromisso, possa voltar algum tipo de parceria aqui na Otan”, disse Mattis em Bruxelas.

Em 22 de janeiro, o Ministério da Defesa russo anunciou que militares de ambos os países haviam começado a trocar informações sobre a Síria, incluindo coordenadas de alvos do Estado Islâmico. No dia seguinte, porém, Washington negou a notícia.

Em meados de fevereiro, o chefe do Estado-Maior das Forças Armadas da Rússia, Valeri Guerasimov, e o chefe do Estado-Maior dos Estados Unidos, Joseph Dundorf, se reuniram na capital do Azerbaijão, Baku. Foi a primeira reunião de alto escalão desde 2014, quando as tensões acerca da Ucrânia começaram a abalar as relações. Embora os generais tenham provavelmente debatido sobre a Síria, ainda não há informações oficiais sobre os possíveis resultados das negociações.

6. O que se sabe sobre os contatos do ex-assessor de Segurança Nacional do presidente dos EUA, Michael Flynn, com Moscou (que lhe custaram seu cargo)?

De acordo com a Casa Branca, o ex-assessor de Segurança Nacional de Trump, Michael Flynn, renunciou após ter mentido para o vice-presidente americano, Mike Pence, sobre as conversas mantidas com o embaixador russo Serguei Kisliak.

Os EUA estão investigando se Flynn prometeu ao diplomata russo ajudar na revogação das sanções. Ao anunciar sua demissão, Flynn negou o fato, e, em entrevista posterior, afirmou que não havia “cruzado quaisquer fronteiras”.

Trump chegou a declarar que, embora Flynn não tivesse informado a Pence sobre suas discussões, seu assessor “estava fazendo seu trabalho” ao conduzir as negociações. O presidente americano negou que a renúncia de Flynn esteja ligada a qualquer tentativa de bastidores de estabelecer acordos com Moscou e expressou descontentamento com os vazamentos ilegais que revelam negociações confidenciais do governo. Trump enfatizou, mais uma vez, que não possui nenhuma ligação com a Rússia, embora deseje melhorar as relações com Moscou.

(*) Jornalista da Gazeta Russa

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