Entrevista com Chico Vigilante

BC – Deputado, que país é este que nasce com as manifestações dos últimos 30 dias?

Chico Vigilante – O Brasil é o mesmo. No futuro, alguém vai escrever e verificar a origem dessas manifestações. Eu quero ir um pouco mais fundo nisso. O mundo inteiro estava em crise. O Brasil continuava sendo um porto seguro para investimentos. Na Espanha, por exemplo, metade da população está desempregada. Então, os investidores vinham para o Brasil por conta da segurança que o país transmitia. Portanto, era necessário que alguém criasse um clima de crise artificial para que o Brasil se igualasse aos demais. Falou muito bem o primeiro-ministro da Turquia, quando disse que as manifestações de desestabilização do governo turco são muito parecidas com as do Brasil. Lembremos que há dez anos ele é uma pessoa extremamente popular, e as manifestações desestabilizaram um país estável.

BC – O senhor consegue apontar a origem das manifestações?

Chico Vigilante – Não. Além de não terem origem, essas manifestações não tinham um sentido, um objetivo, uma pauta. Protestaram contra tudo, Dentro das próprias manifestações havia os mais variados tipos de contestação, desde a PEC 37 até a questão do pastor Marcos Feliciano. Se você fizesse uma entrevista, a maioria da população talvez não saiba o que é PEC 37. Um negócio antipartido, portanto, antidemocrático, porque não existe democracia sem partido. Então tem mais ainda esse ingrediente.

BC – Mas o senhor não reconhece o momento de contestação da juventude?

Chico Vigilante – Naturalmente, há uma certa dose de inquietação dos jovens. Quando nós iniciamos o governo Lula, a maioria desses jovens tinha 10 anos. Portanto, eles não têm a cultura da inflação, não sabem o que é inflação, não têm cultura do desemprego, porque também não sabem o que é desemprego. Eles hoje estão na faculdade. E ai foi uma das coisas que eu achei muito graves, porque tem muitos ali que são do ProUni. São frutos da expansão do ensino superior no Brasil. Ou seja, tem a inquietude da juventude, que é normal, e a ação de alguns oportunistas que  se aproveitaram disso para promover a desestabilização do governo da presidente Dilma.

BC – Mas, de alguma forma, o governo tentou se apossar da mobilização popular…

Chico Vigilante – Depois que as pessoas caíram em si, não foram mais. Agora, entram outros movimentos. Hoje mesmo (quinta-feira 11), o Brasil convocou uma manifestação, com paralisação geral, com uma pauta muito importante, como, por exemplo a questão da reforma agrária, que o governo tem que aprofundar e fazer com mais precisão e com muito mais agilidade. Tem também a questão do projeto que estava tramitando na Câmara Federal que legaliza a prestação de serviços terceirizados, que na verdade configura a precarização de serviços. É até justo que as centrais sindicais tenham se indignado contra isso. Tem a questão do fator previdenciário, criado no governo FHC e que os trabalhadores nunca se contentaram com isso, entre outros pontos, que são justos. Agora, essas manifestações só acontecem onde tem democracia. Veja a situação do Egito, onde se falava da Primavera Árabe. Virou ditadura com assassinato.

BC – Nós corremos algum risco?

Chico Vigilante – Não, não creio. Temos uma democracia consolidada no Brasil. As Forças Armadas, hoje, têm um sentido diferente, voltadas para serem as guardiãs da Constituição. Não tenho notícia de nenhuma inquietação nos quartéis. Acho que o governo Dilma vai dar uma guinada à esquerda e vai ficar muito mais popular. Risco de golpe de estado, felizmente, o Brasil não corre.

BC – O senhor não vê nenhum ponto positivo nas manifestações?

Chico Vigilante – Eu acho positivo e importante que se proteste. Mas é necessário que se tenha foco, objetivo. Querer mais é normal e faz parte do imaginário da sociedade. Não digo para o homem e a mulher se contentar com o que têm. É necessário, porém, reconhecer o que foi feito até agora.

BC – Com as manifestações, o imobilismo, principalmente no Congresso foi revertido, tanto que muitas questões que estavam engavetadas passaram a andar…

Chico Vigilante – Defendo há muito tempo a necessidade de uma Constituinte exclusiva no Brasil. Os constituintes seriam eleitos para reescrever a Constituição, com pontos determinados previamente, e voltariam para casa, sem poder ser candidato a mais nada. Seria o ponto de partida da reforma política, que é a mãe de todas as reformas. E ela só será possível se houver uma constituinte exclusiva.

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