Em 30 anos, mulheres na PMDF conquistaram direitos

Em 30 anos da presença feminina na Polícia Militar, as mulheres conquistaram direitos, como assumir o posto de coronel, chefiar unidades da corporação e até mesmo casar – essas primeiras oficiais ingressaram como soldados, o posto máximo que alcançariam era o de capitã e, para subir ao altar, precisavam completar dois anos de serviço.

“Meu noivo esperou cinco anos para a gente se casar”, lembrou a coronel Vanuza Naara de Oliveira Almeida – que pediu que ele aguardasse um pouco mais de tempo porque desejava ser oficial e precisou ir a Minas Gerais participar do curso de formação.

Ela foi uma das cem selecionadas em 1983, quando foi aberto o primeiro concurso – em seis meses, foram registradas baixas e apenas 84 formaram-se soldados.

Algumas desistências ocorreram durante os primeiros 40 dias, quando precisaram ficar confinadas no quartel – “dormíamos em alojamentos, cada uma tinha sua cama, com nome e recebíamos punição caso não estivesse tudo certinho”, recordou a coronel Verônica Lúcia Dantas.

A coronel Almeida entrou na PM com 24 anos, formada em fisioterapia pela Universidade Federal de Pernambuco – ela morava em Recife e veio para Brasília por conta da transferência do pai, também militar, para a capital federal.

“Chegamos (a família) em abril daquele ano e, em maio, abriu o concurso. Meu pai me incentivou, meu noivo na época e hoje marido e meus irmãos também me incentivaram a participar”, disse.

Mas, nem mesmo conviver com um oficial do Exército a preparou para o que encontrou quando ingressou na corporação: “Não foi fácil. Eu não me imaginava uma militar, até mesmo pela formação acadêmica na área de saúde, e nós precisamos conquistar o nosso espaço, mostrar que podíamos”.

Almeida formou-se como a número 02 em sua turma – isso significa que ela seria a segunda em prioridade quando oportunidades de graduação aparecessem.

“No dia de formatura, a 01, eu ainda lembro o nome dela, era Ingrid. Na época ela era noiva e, quando terminou o curso, precisava decidir entre a carreira e o namoro. Ela optou pelo casamento. O noivo passou em um concurso em outra cidade”, lembrou.

Vanuza Naara de Oliveira Almeida começou soldado e entrou para a reserva após ocupar por um ano o posto de subcomandante geral da PMDF, o segundo maior da corporação. A ascensão se deu em 28 anos de dedicação ao serviço.

Segundo a coronel Dantas, o preparo foi árduo, mas necessário: “Tínhamos aula de defesa pessoal, direção defensiva, tínhamos que saber datilografar. Aprendemos a nos comunicar por rádio, o código internacional de comunicação, policiamento ostensivo, como nos portar na rua, seja em viaturas ou a pé”.

Enquanto formavam-se, também conquistavam direitos. Em 1988 o Brasil ganhou uma nova Constituição Federal, e, com esse documento em mãos, elas recorreram à Justiça em busca de igualdade.

“O decreto de criação da PM feminina dizia que a companhia seria comandada por uma mulher, que chegaria ao posto de capitão e que a missão da companhia seria o policiamento ostensivo com público específico, mulheres, idosos, crianças e adolescentes”, disse Dantas.

A mudança só começou em 1990, com o primeiro curso misto no Centro de Formação e Aperfeiçoamento de Praças, em Taguatinga, que teve entre suas primeiras instrutoras, a, hoje coronel, Maria Costa, também pioneira.

“Como sempre gostei de estudar, me destacava nos concursos, tinha perfil então fui designada para a função”, lembrou a militar que hoje está com 50 anos e comanda o Centro de Altos Estudos e Aperfeiçoamento da PM.

Os trabalhos do centro foram retomados em abril do ano passado e, para ela, representaram melhoria no serviço prestado à comunidade: “Há um crescimento na corporação, com o resgate de valores – como hierarquia, disciplina, união, integração, trabalho em equipe, fundamentais para o nosso trabalho”, disse.

Costa ressaltou outro momento importante: em 1998, quando houve a extinção da Companhia de PM Feminina, em função de uma decisão judicial “o quadro de oficiais de mulheres e homens era separado e elas só podiam chegar a capitão”, explicou a coronel Veronica Dantas.

A decisão, na prática, teve um caráter mais amplo – ela igualou o direito aos gêneros e as capitãs puderam buscar o posto de tenente e coronel e até mesmo passaram a poder concorrer às vagas da PM ainda que casadas.

Mas, para as entrevistadas ainda há muito a avançar. Embora tenham conquistado muitas vitórias, ainda é preciso buscar a igualdade profissional, avaliou Almeida. “Nós temos na PMDF aproximadamente 54 unidades operacionais e nelas, no máximo, somos cinco no comando. Precisamos mudar isso”, declarou.

A antropóloga Lia Zanotta Machado, professora da Universidade de Brasília (UnB) vê que essa é uma questão que os militares necessitam trabalhar na atualidade, pois “ao mesmo tempo em que se deu a abertura, ainda acontece a discriminação”.

“A capacidade física, a coragem, a decisão, a força, a autoridade continua ligada ao conceito do que é imaginado masculino”, analisou a especialista no tema, que estuda o campo do gênero, violência e segurança desde os anos 90.

Para ela, a PM deve acabar com a dualidade de valores – de feminino e masculino: “É preciso entender que homens assim como mulheres têm capacidade de escutar, ouvir e entender e que elas, assim como eles, têm capacidade física, poder de decisão, autoridade e coragem”, ressaltou.

A nova conquista que as oficiais objetivam é acabar com o limite de 10% de vagas de um concurso, regra prevista em todos os editais até hoje.

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