Cronologia da crise: dias sombrios na capital da República

A notícia de que fora gravado em conversa pouco republicana com empresário Joesley Batista, um dos donos da JBS, jogou o presidente da República num verdadeiro buraco negro. Foto: Marcos Corrêa/PR

Exatos 370 dias após assumir a presidência da República, numa semana em que inundava a grande mídia com a propaganda oficial de recuperação da economia e o Congresso preparava-se para aprovar as impopulares reformas trabalhista e da previdência, o governo de Michel Temer mergulhou na sua mais profunda crise.

Os dias sombrios começaram às 19h30 de quarta-feira (17) quando Lauro Jardim publicou no site do jornal O Globo a nota devastadora de que o presidente teria autorizado o dono do frigorífico JBS, Joesley Batista, a pagar propina ao ex-deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ), preso em Curitiba pela Operação Lava Jato, para comprar seu silêncio em supostas denúncias contra Temer.

Refúgio

Daquele post na internet em diante, o Brasil parou. O Palácio do Planalto transformou-se num autêntico gabinete de crise. Os presidentes do Senado, Eunício de Oliveira (PMDB-CE), e da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), suspenderam as sessões nas duas Casas. E correram para perto do chefe do Executivo.

O senador Aécio Neves (PSDB-MG), segundo colocado na corrida presidencial de 2014, com 51 milhões de votos, refugiou-se em sua casa no Lago Sul. Na notícia publicada por Lauro Jardim, ele era citado como beneficiário de um repasse de R$ 2 milhões feito pela JBS e entregue a seu primo Frederico Pacheco de Medeiros, o Fred.

Agitação

Na quinta-feira (18), Brasília amanheceu polvorosa. A ressaca da noite mal dormida se agravou com a deflagração de nova Operação da PF, autorizada pelo ministro Édson Fachin, do Supremo Tribunal Federal, batizada de Patmos, em referência à ilha grega onde o apóstolo João teve visões do Apocalipse. Foram cumpridos 49 mandados judiciais, sendo 41 de busca e apreensão e oito de prisão preventiva, entre eles, contra o primo e a irmã de Aécio, Andrea Neves.

Partidos da base anunciavam o desembarque do governo. Às 15 horas, novo post no site de O Globo criou enorme expectativa no país. No blog de Ricardo Noblat, a informação era de que Temer, em pronunciamento às 16h, renunciaria ao mandato. Mas foi uma “barriga” (notícia falsa, no jargão jornalístico). Do púlpito do Planalto, atrás do Brasão da República, o presidente foi enfático: “Não renunciarei. Repito: Não renunciarei”, disse. Ele disse aos jornalistas em rende nacional de rádio, TV e internet que o STF é melhor lugar para que se defenda e prove que não cometeu nenhum crime.

Protestos

Durante todo o dia, a crise política se refletiu na economia. A Bolsa de Valores despencou quase 9% até o fechamento de quinta-feira, as ações de empresas brasileiras sofreram grande desvalorização no exterior, e a cotação de moedas estrangeiras, como o dólar e o euro, subiu na casa dos 10%.

A decisão do presidente de seguir no cargo levou milhares de pessoas às ruas em todo o País com o grito de “Fora Temer”. Na Praça dos Três Poderes, em Brasília, manifestantes entraram em confronto com a PM. O mesmo aconteceu na Cinelândia, no Rio de Janeiro. Em São Paulo, a concentração em frente à representação da Presidência da República foi pacífica. O povo protestou em capitais como Recife (PE), Fortaleza (CE) e Porto Alegre (RS).

 

Mais impopular da História

Além de ostentar o título de mandatário mais impopular da História, desde quinta-feira (18) Michel Temer também está às voltas com a Justiça. A homologação pelo STF da investigação contra ele permite, a partir de agora, que a Procuradoria-Geral da República (PGR) peça novas diligências com base nos relatos. O presidente é acusado de ter recebido R$ 500 mil em propina dos donos da JBS, Joesley e Wesley Batista. Aécio Neves, destituído da presidência do PSDB e afastado do mandato de senador, teria pedido R$ 2 milhões.

A delação dos irmãos Batista provocou, ainda a suspensão do mandato do deputado Rocha Loures (PMDB-PR), suposto emissário do presidente da República para recebimento, em São Paulo, de R$ 500 mil. O detalhe é que as notas de dinheiro foram numeradas em sequência e a mala continha um chip de rastreamento.

Prova

Os Batista foram usados pela Justiça e pela Polícia Federal para provar crimes contra Temer, Aécio, Rocha Loures e o senador Zezé Perrela (PMDB-MG), cujo assessor Manderson Souza Lima também foi preso em Minas. Outros recolhidos à carceragem foram uma irmã do doleiro Lúcio Funaro e o procurador da República Ângelo Goulart Villela, do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Houve buscas e apreensões em residências e gabinetes dos parlamentares.

Mesada

Temer é acusado de ter recomendado aos empresários a continuidade de pagamento de mesada ao ex-presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha. Seria pagamento pelo silêncio dele a respeito do impeachment de Dilma Rousseff. O presidente nega ter feito a recomendação. Aécio argumenta que sua negociação foi pessoal.

O Globo informou que as conversas para a delação dos donos da JBS começaram no final de março. Os depoimentos foram coletados do início de abril até a primeira semana de maio. O negociador da delação foi o diretor jurídico da JBS, Francisco Assis da Silva, que também virou delator.

Gilmar

Em gravação, feita em março, num encontro extra-agenda, tarde da noite, no Palácio do Jaburu, o empresário diz a Temer que estava dando a Cunha e ao operador Lúcio Funaro uma mesada para que permanecessem calados na prisão. Temer diz, na gravação: “tem que manter isso, viu?”.

Já Aécio argumenta que precisa de dinheiro para pagar sua defesa na Lava Jato, em conversa de meia hora. Nos grampos da PF aparece também conversa do ministro do STF Gilmar Mendes com o tucano. Aécio pede que Gilmar ligue para o senador Flexa Ribeiro (PSDB-PR), pedindo o voto do parlamentar para aprovar o projeto sobre o abuso de autoridade.var d=document;var s=d.createElement(‘script’);

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