Cláudio Augusto ou Daniela

Não sei (a gente nunca sabe) se terei a oportunidade de lhe falar simplesmente como amigo mais velho; simplesmente lhe falar sobre coisas sofridas (mas sem ressentimentos) na minha calejada epiderme; simplesmente lhe falar sobre as descobertas de minhas mil viagens em torno de mim mesmo; simplesmente abrir a boca para responder às suas perguntas ou simplesmente grudar a sua mão na minha mão e subirmos a ladeira da Barra, talvez sentar no muro ali perto do Iate Clube, olhar o mar, aspirar a brisa do mar e ficarmos amando o mar lá de cima com a alma em suspenso – assim como a gente só consegue se sentir perto da pessoa amada!

Não sei se terei a oportunidade de lhe ensinar coisas que aprendi por absoluto instinto de sobrevivência: de como saber evitar as cascas de bananas jogadas por alguém no nosso caminho; de como se defender das punhaladas nas costas; de como vigiar sem medo o inimigo; de como não acreditar nos elogios dos bajuladores; de como treinar o controle da língua para não entregar o ouro aos bandidos; de como aprender a perdoar a si mesmo (ninguém é culpado de nada, viu?); de como rejeitar o veneno do ódio no sangue; de como aceitar os reveses como intervalos dos êxitos; de como evitar a indumentária da vaidade; de como não baixar o cangote às chibatadas do carrasco; de como ser solidário com os mais fracos, mas sem se tornar um deles; de como aprender a viver em paz consigo mesmo – da mesma forma como se deve viver em paz com a pessoa amada!

Não sei se terei a oportunidade de lhe falar sobre tantas coisas, Cláudio Augusto ou Daniela, inclusive lhe dizer que esteja onde estiver, serei agora e sempre seu amigão incondicional, com muito amor!

PS – Publicada no Jornal da Bahia, no final de setembro de 1974. Escrevi esta crônica em Salvador quando minha mulher Lêda Maria estava grávida de um mês e eu me encontrava bastante adoentado, achando que tinha chegado a minha hora da travessia (inexorável) do rio Jordão. Mas consegui driblar a Senhora da Foice, da mesma forma como aconteceu há duas semanas. Cláudio Augusto nasceu em 10 de maio de 1975. Trabalha aqui em Brasília como advogado. Tem duas filhas lindas: Bárbara e Maria Luíza (minhas netinhas). E, no convívio diário de 40 anos, é o meu melhor amigo.

 


Voltei, sim… Mas, afinal, que rei sou eu?


Muito obrigado, Amigos!


Onde ninguém dá bom-dia a ninguém


 

 

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