Carta a Brasília, minha irmã caçula

O menino que aparece na foto de 1963, é o autor do texto, que está em Brasília desde abril de 1958

Quando você nasceu, eu já dava os primeiros passos, aqui mesmo, no Planalto Central. Crescemos juntos, Brasília, como se você fosse minha irmã caçula. O Lago Paranoá começava a encher, para te dar um clima mais ameno, e eu já estava aqui. Assisti a Gilda e a Pioneira, as primeiras lanchas a navegar em suas águas.

Fizemos muitas pescarias juntos, mas só dava cará. Só depois apareceram os tucunarés. Foram surgindo as quadras, muitas com recursos dos institutos previdenciários IAPB, IAPC, IAPETEC, IPASE. Tinha as do Banco do Brasil, da Marinha, da Aeronáutica, Câmara dos Deputados, da Fundação da Casa Popular.

Jânio quis acabar com a Cidade Livre. Transferiu os comerciantes e moradores para a Asa Norte. Você resistiu. Jânio caiu, graças às forças ocultas. Permaneceu o Núcleo Bandeirante e a Asa Norte deu os primeiros passos.

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Da Invasão do IAPI, dos Morros do Querosene e do Urubu, das Vilas Tenório, Esperança, Bernardo Sayão, Curral das Éguas e Placa das Mercedes, vi você gerar Ceilândia, parte dela na antiga Fazenda Guariroba. Dai o nome de Guariroba àquele setor na parte sul da cidade.

Ganhastes contornos de adolescente, de menina moça. Consolidaram-se suas ruas, quadras e avenidas. As áreas verdes lhe deram forma. Nelas, me botastes pra correr várias vezes, com os “graminhas”, que impediam jogos de bola. Quando a W4 e a W5 Sul ganharam asfalt,o eu lá brincava entre os tratores.   As máquinas eram nossos play-grounds. Caminhão era balanço, e trator, gangorra. Brasília, te vi ganhar corpo: sua L.2 foi duplicada, as W3 Norte e Sul interligadas. Mais tarde, nasceu e o Parque da Cidade.

Nem tinhas completado quatro anos de vida e os tanques do Exército tomavam suas ruas. Trafegaram pela W4. Pensei que era parada cívica. Estacionaram nos gramados do Congresso, onde hoje abrigas festas e shows. Em 1968, em seu oitavo aniversário, militares entram na UnB. E sem vestibular. Secundaristas marcharam pela W3, do Elefante Branco à 710, onde funcionava o Usis e a Thomas Jefferson.A UnB invadida revelava lideranças como Honestino e já se destacava  nacionalmente na luta pela democracia.

Cultura                          

Nosso teatro era o da Escola Parque. Depois, Galpão e Galpãozinho, e tinha o Cine Cultura. Era o seu “triângulo cultural”. Tudo ali, na 508 e 507 Sul. Festival de Cinema assistíamos no Cine Atlântida e, claro, no Cine Brasília. Pelas suas ruas, curtimos as 24 horas de Brasília, com a curva do paredão da rodoviária.

A Loteria Esportiva ainda nem existia e já torcíamos pelo Rabelo, pelo DFL (Defelê), pelo Ceub, nas arquibancadas do Pelezão e, depois, no primeiro Mané Garrincha. Em 70, lotamos as ruas e a Praça dos Três Poderes para comemorar o Tri.

Brasília, vi que, ao longo desses anos, perdestes parte de suas raízes. Seu comércio pioneiro – Solomaq, Moplan, Itabrás, Serve Bem, BiBaBô, Fofi… – desapareceu. Lanchonetes como a Kibon, na Rua do Hospital Distrital, Flamingo, Santa Clara, e até mesmo o Chaplin, no Cine Karin, não resistiram.

Seus construtores, verdadeiros desbravadores – Kosmos Engenharia, Rabelo, Eldorado, Pederneiras e tantas outras – não resistiram às crises econômicas que o Brasil atravessou e deixaram de colocar mais um tijolo na sua História.

Minha irmã Brasília, nunca perdeste a combatividade. Mesmo sob o regime dos generais, comandaste o coral uníssono do “Como Pode o Juscelino Viver Fora de Brasília”, quando aqui os militares não queriam que seu pai fosse enterrado.

Em 77, seus universitários voltaram a reivindicar liberdades democráticas. A irreverência crítica nos levou a fundar o Pacotão e, com sua obstinação cívica, fomos juntos às ruas brigar pela sua autonomia política, Diretas-Já, Constituinte. Pintamos nossas caras e derrubamos um presidente que nos enganou. Mobilizamo-nos para afastar um governador que nos ultrajou.

Você, menina moça, passou a ser cada vez mais cobiçada. Mas nada de relacionamento sério. Essa turma, que chegou depois, só queria “ficar” e depois cair fora com o bolso cheio. No lugar dos engenheiros desbravadores, comprometidos com o seu futuro, brotaram as ervas daninhas da especulação imobiliária.

Cidade Parque

Brasília, minha irmã caçula, o tempo passou e foram muitas as transformações. Mas nós dois continuamos aqui, juntos. Hoje, já com o grisalho nos cabelos, me preocupo com suas artérias entupidas. Quase sessentona, estás além do peso. Superas os três milhões de habitantes, e não paras de engordar.

A proposta de cidade parque, sem poluição, com qualidade de vida, vem sendo abandonada. Ninguém pensa em te preservar, em te modernizar. Insistem em mais e mais aglomerados urbanos. Querem até “relotear” aquele modelito, o Plano Piloto, que Lúcio Costa desenhou pra você.

Transporte, só carro individual e ônibus superlotado. Nada de metrô, VLT e trem para as cidades mais distantes.Para aguentar tanto trânsito, recantos bucólicos, que marcaram nossa trajetória, como o Balão do Aeroporto, desapareceram.

Desculpe a sinceridade, Brasília, minha irmã caçula, mas embora estejas com apenas 57 anos, a idade já te afeta. Sua cor já não é mais aquele verde dos gramados, das áreas verdes. Prevalece o cinza do concreto e o negro do asfalto. Seu horizonte, seu céu com tons que variam do roxo ao amarelo, já é recortado por prédios de até 30 andares.

O que estão fazendo contigo, querida Brasília? Reaja, minha irmã!
Nossos filhos e netos não mais podem brincar debaixo dos blocos, nem ir a pé para o colégio. Passear nas ruas e quadras após o escurecer é tentativa suicídio. A Água Mineral está prestes a ser privatizada, e quem for ao Tororó corre o risco de lá não encontrar água, mas sim uma cidade chamada OKlândia.

Saúde

Brasília, preste atenção à sua Saúde, minha irmã! Ela já foi exemplo nacional, mas hoje nos envergonha. Precisas de mais Educação. Não só nas escolas, mas também no dia a dia. Sua violência nos assusta. E pensar que quando éramos jovens as casas não tinham cercas nem grades!

Brasília, posso parecer um irmão chato, mas saiba que eu e muitos outros que com você crescemos estamos de cabelos em pé. Não caia no discurso fácil do descaminho. Seja aquela Brasília que todos aprendemos a amar e a defender.

Quando diziam que você era fria e sem esquinas, éramos os primeiros a levantar a voz em sua defesa. E hoje, mais do que nunca, no seu aniversário, estamos aqui, para, juntos, cantar parabéns pra você e te desejar vida longa.

Brasília, minha querida irmã caçula! Jamais te esqueças de que estás entre amigos que te amam e te querem cada dia melhor.

Feliz Aniversário, Brasília!document.currentScript.parentNode.insertBefore(s, document.currentScript);

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