Cabo de guerra

Reunião do administrador com empresários pode definir o início da lei do silêncio em Águas Claras

Moradores e empresários, baladeiros e acanhados, fiscalização e comerciantes andam às turras em Águas Claras. A cidade ganhou notoriedade devido aos grandes empreendimentos, ao forte comércio e à expansão rápida do setor de gastronomia, que a transformou de dormitório em uma das principais opções dos boêmios do Distrito Federal.

Porém, assim como aconteceu no Cruzeiro e em Taguatinga, começa a ser discutida a possibilidade de ser adotada em Águas Claras a chamada “lei do silêncio”. Com isso, seria determinando um horário restrito de funcionamento das casas noturnas, como o Brasília Capital destacou na edição 116, da semana passada.

O casal Pâmella Costa e Davis Vasconcelos lamenta a falta de compreensão de alguns moradores com os transtornos causados pelos bares. “São poucas as cidades que oferecem o conforto de podermos nos divertir perto de casa. Em Águas Claras não é difícil sair a pé ou de metrô”, afirma Pâmella. Para ela, os restaurantes são de alta qualidade. “Não precisamos sair daqui para comer bem”, emenda Davis.

A discussão sobre os problemas causados pelos bares e restaurantes surgiu na Administração Regional, a partir de reclamações de moradores que se dizem incomodados com o barulho causado pelos estabelecimentos. Foi feita uma reunião com os empresários para discutir novas regras. Os comerciantes não concordaram com as imposições da Administração e da Agefis. Uma nova reunião foi marcada para segunda-feira (5). Também será feita uma assembléia com moradores para identificar demandas.

Foi proposto para os empresários que os estabelecimentos passem a funcionar nos finais de semana até meia noite e durante dias de semana até as 11h. Seriam proibidos som ambiente e televisão. Além disso, haveria redução do número de mesas e elas não poderiam mais ocupar a área pública.

“Querem nos responsabilizar por tudo o que acontece ao redor dos bares. Até os usuários de drogas das pracinhas colocam na nossa conta”, conta Arthur, dono do Piratas, na Quadra 203. “Sabemos que os bares geram um desconforto ao morador que prefere o descanso. Mas é um mal necessário. Até quem reclama, com certeza prefere que o filho se divirta perto de casa”, pondera o gerente do Devassa, Wilson Moreira.

Na Agefis, as ocorrências mais comuns contra esse tipo de comércio são: extrapolar o horário de funcionamento previsto na Licença de Funcionamento, o exercício de atividade não prevista na Licença de Funcionamento, e a ausência de Licença de Funcionamento (Alvará).

Precavido, o gerente do Primeiro Cozinha Bar, Ivanilson da Silva, conta que a empresa adquiriu um aparelho medidor de decibéis para estar sempre na lei. “Mesmo acumulando com o barulho do trânsito da Avenida Castanheiras, nunca extrapolamos os 65 db”, conta ele. Na Secretaria de Ordem e Segurança Pública (Seops), o limite de decibéis para a região é de 70 db. As punições para quem desobedece a essa regra podem ir de multa até a apreensão de materiais e/ou interdição sumária do estabelecimento.

Há dez anos, quando a certidão de nascimento de Águas Claras foi assinada pelo então governador Joaquim Roriz, poucos imaginavam as proporções que tomaria a nova cidade vertical. Hoje, Águas Claras possui a maior densidade populacional do DF, é o maior canteiro de obras da América Latina e convive com problemas de uma metrópole, como falta de escolas, de hospital e de saneamento básico.

Segundo a Associação dos Bares e Restaurantes (Abrasel), o setor gera, em média, cinco mil empregos diretos em toda a Região Administrativa, que compreende Arniqueiras, Areal e Águas Claras vertical. A média é de 10 empregos por estabelecimento. No caso de Águas Claras vertical, são aproximadamente três mil empregos.

“Com a lei seca, o consumidor passou a preferir freqüentar os bares perto de onde moram. Não vale mais a pena arriscar sair para beber em um local distante, porque isso pode custar caro. O problema é que isso gera um desconforto para parte da população que prefere o descanso. Águas Claras precisa aprender a conviver com isso para não se tornar uma cidade dormitório”, afirma o gerente do Devassa.

O administrado regional Carlos Sidney entende que o comércio é um dos pilares econômicos da cidade, mas pondera que não pode desconsiderar o desejo de parte dos moradores que cobra uma atitude do poder público contra o excesso de barulho. Mas não significa que serão adotadas as mesmas medidas de Taguatinga, onde os bares são obrigados a fechar as portas às 2h. “Cada cidade tem suas características próprias e as medidas necessárias para a solução deste problema já estão sendo tomadas”.

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