Brincando no Céu

“O Cachorrinho deu uma mordida de leve no calcanhar do Gigante, só para chamar a atenção. O Gigante desafivelou seu belo cinturão de estrelas e deu umas lambadinhas (também de leve) no lombo do Cachorrinho. Aí veio a Via Látea e disse pro Gigante:

– Não bate nele, Gigante!

O Gigante guardou seu luminoso cinturão, ficando muito agradecido à Via Látea por ter interferido, antes que o Cachorrinho chorasse. Ele era grandão e forte, mas tinha o coração tão mole como pudim de leite. E não gostava de ver ninguém chorar…”
Nas minhas obras “literárias” de infância, o Gigante era o personagem preferido, o que se chama hoje de protagonista. Nos meus devaneios, ele funcionava, ao mesmo tempo, de herói e de pai disfarçado do Cachorrinho. Por isso ele precisava ter uma paciência toda especial para compreender as peraltices do Cachorrinho.

Prém, naquele tempo eu ainda não sabia: sete crianças dão muito mais trabalho do que um pelotão de Cachorrinhos, mesmo do tipo do Cachorrinho-constelação. Como legítimo autor inédito, não fazia muita diferença se as minhas croniquetas não conferissem com a dura realidade da vida. O que importava mesmo era o céu de Friburgo, com as estrelas sempre ao alcance das mãos das crianças, principalmente nas noites sem Lua, que é linda, porém consegue ofuscar com sua forte luminosidade o brilho e o cintilar rítmico das estrelas.

E eu aproveitava para conversar com o Cachorrinho, com o Gigante, com a Via Látea, com as Três Marias e com tantos outros astros. Num desses diálogos, quase  cortei as relações com o Cruzeiro do Sul. Assim sem mais nem menos, certa noite ele resolveu se esconder de mim. E eu fique até a madrugada de cabeça virada pro Céu, perguntando com lágrimas nos olhos:

– Onde está você, Cruzeiro do Sul?

Esse reencontro com o passado me surpreende. Há uma namorada que tinha olhos verdes-jade e que nunca desconfiou do meu grande amor, muito menos ficou sabendo sobre o dolorido soneto que escrevi em sua homenagem. Há, ainda, um livreto de poemas, todo datilografado, isto logo depois de minha declaração de guerra ao parnasianismo das métricas e rimas.

De repente resolvi abrir o baú de meus sonhos. Acho que valeu. Agora tenho certeza de que fui uma criança solitária, mas não infeliz. Isto porque me divertia bastante, brincando com as estrelas do Céu.

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